A Cura Sob Julgamento
- ABPCM

- 21 de jul. de 2025
- 2 min de leitura
Num país onde o remédio cresce no chão e a dor floresce no peito, a esperança foi algemada por um carimbo.
A ABPCM — Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis — não nasceu de um plano de negócios, nem de um interesse comercial. Nasceu do desespero. Da última alternativa. Da mãe que assiste o filho convulsionar. Do idoso que volta a dormir depois de anos de insônia e morfina. Do jovem que reencontra a paz depois da guerra química dos antidepressivos. Nasceu do amor, e por isso incomoda tanto.

O que estamos enfrentando agora ultrapassa a burocracia: é perseguição disfarçada de zelo institucional. Um Ministério Público Federal que deveria proteger a cidadania, nos sufoca com exigências que beiram o delírio.
Pedir uma autorização da ANVISA para importar flores de cannabis é como exigir uma licença para atravessar uma ponte que nunca foi construída. A ANVISA não autoriza a importação de flores in natura. Ainda assim, exigem um documento impossível como condição para o direito à saúde. Criaram um paradoxo cruel, uma emboscada jurídica: se você apresenta o pedido, ele é negado. Se não apresenta, você está irregular.
Exigem agora que todos os associados façam cursos de cultivo e extração. Todos. Como se cada paciente fosse um botânico em potencial, um técnico agrícola, um laboratorista. Ignoram que o cultivo é coletivo, realizado por jardineiros treinados e eleitos, que cuidam da planta com zelo quase religioso. Querem burocratizar o acesso com um verniz de técnica, mas o que há é puro desrespeito: ao tempo, à realidade, à dor.
E, como toque final de crueldade, exigem comprovação de hipossuficiência financeira. Em outras palavras: apenas os miseráveis teriam, segundo essa lógica, o direito de plantar para sobreviver. Como se o câncer escolhesse renda. Como se a epilepsia respeitasse classe social. Como se quem sofre, e busca um tratamento digno, não tivesse o direito de pagar por segurança, estrutura e qualidade. Como se fosse crime ter condições de cuidar da própria saúde.
Essas exigências não são falhas técnicas. São armadilhas morais. São muros erguidos para impedir o avanço de uma nova forma de cuidado, que não lucra com a doença, que não vende a cura em cápsulas douradas, que não se ajoelha diante da indústria.

Mas o que incomoda, sobretudo, é que a ABPCM funciona. Entrega. Salva. E por isso precisa ser silenciada.
Estamos diante de um abismo jurídico. Um vácuo de justiça onde os pacientes são tratados como criminosos e as flores como contrabando. Onde a solidariedade é suspeita. Onde o Estado não protege, mas pune.
Mas há uma coisa que eles não podem proibir: a convicção de que estamos certos.
A ABPCM seguirá. Porque não luta por lucro, luta por vida. Porque cada associado é uma chama. E juntos, somos um incêndio.




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